24/05/2015
FOTO
   Ainda eram dez para as sete quando eu acordei nessa manhã de domingo. Abri a janela, o sol brilhava lá fora, um brilho morno, diferente de todos os dias, eu ainda não sabia o motivo desse dia parecer tão triste, mas logo iria saber.
    Todos os dias da semana eu acordo às 6:30 da manhã, tomo meu banho, me arrumo apressada, como qualquer coisa e corro pra não me atrasar. De segunda à sexta eu me viro com dois estágios (isso é o que se faz pra sobreviver e colar grau na faculdade). Trabalho até por volta das duas, almoço em qualquer canto e vou pra aula. Quando chego em casa já é noite e eu só penso em engolir algo, tomar um banho e relaxar na minha cama. Aos sábados eu acordo no mesmo horário, só que ao invés de trabalhar eu tento me divertir um pouco aprendendo Libras, uma coisa totalmente fora da minha rotina e do meu meio, isso é o mais radical que tenho feito nos últimos meses. 
    Aos domingos, ah aos domingos, eu aproveito pra dormir até mais tarde, colocar as atividades domésticas em dia e fazer o que todo ser humano adora. Fazer nada. Isso mesmo, ficar na caixa do nada, olhando pro teto quando na verdade não estou olhando pra lugar algum. 
    Mas esse domingo foi diferente, eu acordei cedo, totalmente indisposta a voltar a dormir. Depois de tanto rolar na cama eu resolvi dar aquela checada costumeira nas redes sociais. Foi o suficiente pra perder as energias do resto do dia. 
    Na noite anterior teve uma luta de algum cara muito importante, desses que fazem careta tipo o boi da cara preta, eu já imaginava a enxurrada de comentários sobre essa luta, até fui dormir mais cedo porque eu tinha certeza que no dia seguinte teria mil relatórios em todas as redes sociais. Mas pra minha tristeza não era sobre isso que tanto falavam.
    A notícia que me chocou foi a morte precoce de duas jovens. Duas garotas totalmente diferentes, de mundos distintos, que descansaram no mesmo dia.
    Quando me deparei com a foto da primeira eu entrei em choque, eu sabia que conhecia ela de algum lugar. Comecei a procurar até que encontrei, ela era amiga de uns velhos amigos meus. Eu não me lembro da voz dela, não lembro do jeito dela, mas uma coisa eu lembro, ela era uma boa pessoa. Boa não, ótima pessoa. Dessas que a gente bate o olho e sente um paz dentro da gente, sabe? Dessas que ninguém é capaz de dizer uma palavra pra ela que não seja um elogio ou um agradecimento. Ela tinha acabado de dar à luz uma menininha linda, depois disso teve várias complicações e mais complicações, e tantas complicações que no final só restava a esperança de um milagre. O milagre não veio. Ela era jovem, linda, com uma recém-nascida e uma vida inteira pela frente.
    A segunda teve uma morte tão trágica quanto, foi vítima de uma chacina. Vítima da falta de segurança que temos. Ela tinha quase a minha idade, estava com os amigos e foi vítima do acaso. Estava no lugar errado, na hora errada. Mas ela não foi a culpada dessa fatalidade. Ela assim como todos nós deveria estar segura de ir e vir, sem correr o risco de sofrer qualquer consequência. Mas isso não ocorreu.
    Eu tenho apenas vinte e três anos, e como qualquer pessoa dessa idade eu acho, ou pelo menos achava, que a morte é uma realidade distante. A primeira vez que me deparei com a morte eu tinha pouco mais que dez anos de idade e foi quando perdi minha avó materna, ela era bem velhinha e apenas dormiu e não acordou. Os adultos me consolavam dizendo que já estava na hora dela e que ela precisava descansar. Depois disso, com quinze anos, eu perdi uma amiga, foi um choque, na minha cabeça de adolescente pessoas de quinze anos não morriam, era inaceitável. Mais uma vez os adultos me consolavam com o mesmo texto, e eu não aceitei, mas eu entendi e decidi que dali pra frente eu viveria como ela viveu, fazendo sempre o que gostava. 
    Mas depois de um tempo a gente entra no automático, já faz um tempo que faço as coisas porque devo fazer e não porque quero fazer. E esse domingo triste pra tanta gente me deixou uma interrogação. Eu li várias das mensagens que deixaram pras garotas, elas eram muito amadas, queridas, de verdade. Faziam o que gostavam, eram felizes, viviam de forma plena, mesmo que bem diferentes uma da outra. E eu me perguntei: E eu? Será que eu faço o que eu gosto ou só tô vivendo de acordo com a maré? Será que eu tô deixando um pouquinho de amor nesse mundo?
    E elas deixaram muito amor nesse mundo. Tanto amor que só de olhar uma foto já dá pra perceber. E é esse tipo de coisa que eu quero cultivar por aqui, mesmo que eu descanse cedo ou tarde, é isso que vale a pena que fique.

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